Criança não sabe de nada?

Escrito por em 16 de agosto de 2017

Esta frase foi escutada por mim, na minha infância, em vários contextos. Mas o momento em que ecoou dentro dentro de mim, com impacto, foi quando eu escutei esta frase da avó de uma paciente de 7 anos. Ao sair da sessão com a criança eu avisei a avó  que teríamos que mudar o dia do seu retorno, pois sua neta havia me dito que haveria jogo da Copa Mundial no horário da sua sessão. Automaticamente a avó respondeu “ela não sabe de nada”. Bem, neste caso a neta estava certa. Em seguida, refleti sobre o hábito dos adultos não darem credibilidade à criança.

A autoridade que o adulto exerce sobre a criança, muitas vezes não lhe dá direito à fala, ao pensamento, à começar a desenvolver conexões e raciocínios que vai utilizar na vida adulta. O adulto  não se dá conta de que ele poderia perguntar o que a criança pensa em relação a situações em que ela poderia perfeitamente opinar. Imaginem decisões que excluem o principal interessado: a criança. Ainda sobre este caso, a minha cliente de 7 anos, que morava com a avó, representou ela e sua avó como sua família. Não foi um desenho comum, porque nele a criança estava pulando em uma cama elástica e a avó estava do lado de fora. A explicação dada a mim foi: “preciso pular para alcançar a minha avó”. Este exemplo serve para discutir aqui uma questão bem importante: a distância que podemos criar entre nós e a criança quando não damos a ela espaço de voz, de atenção e de troca. Não estou dizendo que os pais não precisam ter autoridade sobre seus filhos.

Quando a criança é escutada e entende que em alguns momentos seus desejos não podem ser atendidos, ela se sente mais acolhida e cria o hábito de dialogar e estabelecer um consenso para o bem de todos. Claro que para isso,  a condução do adulto precisa ser amorosa e paciente. A pressa do adulto em resolver as situações diárias provoca ansiedade na criança e sentimentos de raiva e frustração. É como se ela estivesse fora da cena. Imagine você sem ter direito de participação na sua vida e além disso, não tivesse o direito de pelo menos expressar o que pensa e sente. O que isso provocaria em você? Algum incômodo, com certeza. Talvez você tomaria alguma atitude. A criança também vai buscar uma saída. E muitas vezes, pode ser uma saída negativa e não saudável, que pode ir crescendo como uma bola de neve ao longo dos anos.


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